Principais negócios de M&A em 2026: transações recentes, acordos no radar e tendências que merecem atenção

Quando se fala em negócios recentes de M&A, a tentação é olhar apenas para o valor bilionário de uma ou duas operações e concluir que o mercado voltou com força total. O quadro real é mais seletivo. Em 2026, o fluxo de fusões e aquisições está forte em valor, mas não necessariamente em volume amplo. A PwC resume bem esse momento: o mercado entrou no ano com megadeals ganhando espaço, compradores mais capitalizados tomando a dianteira e temas como IA empurrando parte relevante da agenda estratégica. A Bain vai na mesma linha ao tratar 2025 como o segundo maior ano da história em valor global de M&A, puxado por reposicionamento estratégico, tecnologia e redistribuição de lucro entre setores.

No Brasil e na América do Sul, o pano de fundo também ajuda a explicar por que as conversas de M&A ganharam tração. A KPMG Brasil registrou 1.581 transações no quarto trimestre de 2025 e destacou maior peso de tecnologia e fundos, enquanto um estudo regional da própria KPMG apontou que 57% dos executivos esperam aumentar a atividade de M&A na América Latina ao longo de 2026. Em paralelo, o guia da Chambers para Corporate M&A no Brasil observou 1.877 transações anunciadas em 2024 e valor agregado divulgado de aproximadamente R$ 313,5 bilhões, lembrando que a cifra real tende a ser maior por causa de operações sem valor público.

Esse contexto importa porque ele muda a leitura de transações recentes de fusões e aquisições. O mercado não está premiando qualquer tese. Ele está favorecendo operações com lógica industrial clara, sinergia defensável, disciplina de integração e, cada vez mais, capacidade de provar valor em due diligence. Em outras palavras: há apetite, mas não há paciência para ativos mal organizados, estruturas societárias nebulosas ou vendedores que chegam à mesa sem preparação. Para quem acompanha o setor de tecnologia jurídica e gestão documental, esse detalhe não é periférico. Ele está no centro do jogo.

O que os deals mais recentes já dizem sobre 2026

Um dos casos mais interessantes para o público brasileiro é o da Suzano com a Kimberly-Clark. A operação, anunciada em 2025, avançou em 2026 com aprovação incondicional da União Europeia para a joint venture de US$ 3,4 bilhões, na qual a Suzano ficará com 51% do negócio internacional de tissue da Kimberly-Clark. O ponto relevante aqui não é apenas o tamanho da transação. É o racional: consolidação em um setor pressionado por demanda mais fraca, excesso de capacidade e necessidade de escala operacional. O fato de a revisão britânica ainda seguir em curso mostra também que o M&A atual pode ser rápido na tese, mas continua lento na aprovação regulatória. A Reuters detalhou bem esse avanço.

Outro negócio com leitura útil para o mercado brasileiro é a compra de aproximadamente 73% da Desktop pela Claro, em uma transação que avalia a empresa em cerca de R$ 4 bilhões em enterprise value. A mensagem é clara: consolidação em telecom segue viva quando o ativo amplia cobertura, fortalece presença regional e responde a um objetivo comercial concreto. Mais importante ainda, o CEO da Claro no Brasil afirmou que a companhia segue aberta a novas aquisições, desde que façam sentido estratégico. Isso é um bom retrato do momento: menos apetite por volume e mais foco em ativos que realmente resolvem um problema de crescimento, capilaridade ou retenção. A Reuters também cobriu esse movimento.

Na saúde, a Bayer acertou a compra da Perfuse Therapeutics por até US$ 2,45 bilhões, com pagamento inicial menor e parcelas vinculadas a marcos regulatórios e comerciais. Esse tipo de estrutura mostra uma tendência que continua forte: compradores aceitam pagar caro, mas tentam transferir parte do risco para o desenho econômico do contrato. Em biotech e farma, isso se conecta diretamente à urgência por pipeline. A Reuters reportou que 2026 caminha para um ano muito forte em pharma M&A porque grandes companhias precisam repor receitas antes do vencimento de patentes importantes.

No segmento de direitos musicais, a Sony Music Publishing acertou a compra do catálogo da Recognition Music Group, em operação estimada em cerca de US$ 4 bilhões. Embora pareça distante do M&A corporativo clássico, esse deal ajuda a entender o momento do mercado: ativos previsíveis, com fluxo de caixa claro e monetização recorrente, continuam extremamente atraentes. O comprador não está pagando por promessa difusa; está pagando por receita relativamente estável, possibilidade de exploração multimídia e proteção contra volatilidade de outros negócios.

O setor de consumo também voltou a produzir operações grandes. A Reuters destacou dois movimentos de primeira linha no primeiro trimestre: a compra da Jetro Restaurant Depot pela Sysco por US$ 29 bilhões e a aquisição do negócio de alimentos da Unilever pela McCormick por quase US$ 45 bilhões. O dado mais importante não é só o montante. Segundo a agência, foi a primeira vez em mais de uma década que duas operações de consumo nos EUA entraram juntas no top 10 global do trimestre. Isso reforça uma leitura relevante para 2026: empresas de consumo estão usando M&A para reequilibrar portfólio, ganhar escala e responder a margens pressionadas e hábitos de compra em mudança.

Negócios no radar: o que pode ganhar forma nos próximos meses

Quando o assunto é upcoming deals, o cuidado principal é separar o que já foi anunciado do que ainda está no terreno das conversas, sondagens ou revisões regulatórias. Misturar as duas coisas produz textos chamativos, mas pouco úteis. O investidor, o executivo e o assessor financeiro precisam de uma leitura mais limpa.

Nesse grupo de negócios já anunciados, mas ainda não totalmente concluídos, a joint venture entre Suzano e Kimberly-Clark permanece como um dos casos mais relevantes para acompanhar. A aprovação europeia já saiu, mas a CMA britânica continua analisando o caso. Enquanto isso, a estrutura da transação já revela um detalhe que merece atenção: a Suzano terá opção de comprar a participação remanescente da Kimberly-Clark no futuro. Em outras palavras, a operação pode ser lida não só como consolidação atual, mas como plataforma para movimentos adicionais.

No Brasil, a compra da Desktop pela Claro também entra na categoria de negócio que o mercado precisa acompanhar até a consumação final, porque ainda depende de aprovações do CADE e da Anatel. Além disso, a própria Claro já sinalizou que não descarta novas aquisições. Para quem acompanha telecom e infraestrutura digital, isso importa porque sugere um pipeline que pode continuar ativo, especialmente em mercados regionais com fragmentação relevante.

Há também movimentos que ainda não viraram transação formal, mas valem monitoramento. A Reuters informou em abril que Deutsche Telekom e T-Mobile US mantinham conversas iniciais sobre uma possível combinação que, se avançasse, poderia resultar na maior fusão pública já vista no setor e criar um grupo com valor de mercado perto de US$ 300 bilhões. É cedo para chamar isso de deal iminente. O correto é tratá-lo como operação em estágio preliminar, dependente de alinhamento político, regulatório e societário. Mesmo assim, ele serve como termômetro do mercado: quando empresas desse porte reabrem o debate sobre escala, o sinal é de que a consolidação estratégica continua na mesa.

No consumo, a Reuters também relatou conversas em andamento entre Brown-Forman e Pernod Ricard e entre Estée Lauder e Puig. Ainda não são operações anunciadas, mas a reportagem é útil porque mostra a lógica por trás dos próximos deals: portfólios maduros, pressão por crescimento, famílias controladoras reavaliando alternativas e necessidade de diversificação geográfica. Esse tipo de contexto costuma anteceder operações maiores do que o mercado imaginava.

As tendências de M&A que realmente merecem atenção

A primeira tendência é a convivência entre volume seletivo e valor elevado. A PwC espera valor robusto em 2026 mesmo com número de transações menos espalhado, e a Reuters reportou que o primeiro trimestre global já superou US$ 1,2 trilhão, com alta forte em operações transfronteiriças. Em Q1, o M&A cross-border avançou 47% ano contra ano e chegou a US$ 454,7 bilhões, o melhor primeiro trimestre desde 2002. Isso indica um mercado em que as companhias não estão simplesmente fazendo mais operações; estão fazendo operações maiores e mais direcionadas.

A segunda tendência é o peso crescente da tecnologia — e não só no setor de software. A Bain trata a ruptura tecnológica como um dos três grandes motores do M&A atual, e a KPMG Brasil apontou maior destaque para tecnologia no fechamento de 2025. Em termos práticos, isso significa que companhias de setores tradicionais estão comprando ativos para acelerar digitalização, analytics, automação, software embarcado e capacidade de decisão orientada a dados. Não é coincidência que negócios de telecom, infraestrutura e indústrias com forte componente operacional estejam olhando aquisições como atalho estratégico.

A terceira tendência é a corrida por escala combinada com proteção geográfica. A Reuters mostrou que várias das maiores operações do primeiro trimestre foram cross-border, e a própria reportagem sobre megadeals de consumo ressaltou que empresas globais querem reduzir dependência excessiva de um único mercado. Isso é relevante para grupos brasileiros e latino-americanos. Em um ambiente mais volátil, internacionalizar portfólio ou diversificar exposição deixou de ser apenas tese de expansão; virou também tese de defesa.

A quarta tendência é a volta de setores antes mais travados. Em pharma, a Reuters vê 2026 como ano potencialmente muito forte por causa dos vencimentos de patentes. Em energia, a PwC observou aumento de aproximadamente 57% no valor das transações entre 2024 e 2025 e expectativa de continuidade em 2026, puxada por demanda estrutural por energia, resiliência e capacidade. Em finanças, a PwC destaca competição maior, disrupção tecnológica e a expansão do private credit como fatores que estão redefinindo estratégia de deals. O ponto aqui é simples: o ciclo atual de M&A não está concentrado em uma única indústria. Ele está se espalhando por vários setores, cada um com sua lógica própria.

A quinta tendência é a volta do private equity e do venture capital como força mais visível no mercado brasileiro. A KPMG Brasil destacou avanço de fundos no fechamento de 2025, e a mesma KPMG mostrou crescimento de 17,4% nas operações envolvendo private equity e venture capital no acumulado do ano. Isso não quer dizer que toda transação será leilão agressivo entre fundos. Quer dizer, sim, que ativos bem posicionados, com tese clara e governança minimamente organizada, podem encontrar mais de um tipo de comprador à mesa.

O que esses movimentos significam para empresas brasileiras

Para empresas no Brasil, o recado não é “prepare-se para vender amanhã”. O recado é outro: prepare-se para ser diligenciado a qualquer momento. Em um mercado que combina seletividade, valor alto e mais competição por ativos realmente diferenciados, a diferença entre um processo fluido e um processo arrastado costuma aparecer muito antes da assinatura do contrato. Ela aparece na qualidade dos contratos, na clareza do cap table, na consistência das demonstrações financeiras e na velocidade com que a empresa responde a perguntas críticas.

Isso vale ainda mais porque a confiança do investidor na América Latina segue firme. A KPMG apontou que 62% dos executivos veem a oportunidade de M&A na região como maior do que nunca, e 57% esperam elevar o apetite por deals até 2026. Ao mesmo tempo, a leitura regional é de menos volume e mais valor por operação. Em linguagem simples: o comprador está disposto a ir adiante, mas quer convicção.

Para quem vende, isso cria uma obrigação prática: organizar due diligence, governança e documentação antes de o processo esquentar. É aqui que o data room para M&A deixa de ser detalhe operacional e passa a ser infraestrutura de execução. Em um processo competitivo, não basta ter os arquivos. É preciso ter controle de acesso, versionamento, rastreabilidade, estrutura lógica de pastas e capacidade de responder rápido sem expor informação demais cedo demais. O mercado de 2026 recompensa preparação. Ele pune improviso.

Esse movimento também reforça um ponto que muita empresa ainda subestima: o VDR não serve apenas para grandes operações bilionárias. Ele já faz diferença em revisões estratégicas, reorganizações societárias, captação, auditorias e transações em andamento. Quem quiser entender melhor essas aplicações pode ver os casos de uso de data rooms e como a ferramenta se encaixa em diferentes contextos corporativos.

O que observar nos próximos meses

Se eu tivesse de resumir o radar de curto prazo em poucos pontos, diria o seguinte.

Primeiro: acompanhe os deals anunciados que ainda dependem de aprovação. Eles mostram onde a regulação está acelerando e onde continua travando valor. Suzano/Kimberly-Clark e Claro/Desktop entram exatamente aqui.

Segundo: acompanhe setores em que a pressão estratégica está alta o suficiente para transformar conversa em transação. Pharma, telecom, consumo e energia seguem na frente por razões diferentes — pipeline, escala, capilaridade, portfólio e reposicionamento.

Terceiro: observe o comportamento do M&A cross-border. Quando ele acelera, costuma sinalizar maior confiança de compradores globais, maior disposição para assumir integração mais complexa e mais competição por ativos premium. O salto de 47% no primeiro trimestre de 2026 não é ruído; é mudança de ritmo.

Quarto: fique atento ao papel da IA como tema transversal. A PwC já coloca a IA entre os motores do ciclo atual. O mercado não está comprando “IA” como slogan. Está comprando capacidade de automação, analytics, software e ganho de produtividade com tese de monetização concreta.

Fechamento

O debate sobre fusões e aquisições recentes em 2026 ficou mais sofisticado. Não basta listar as maiores operações e repetir o valor de cada uma. O que realmente importa é entender a lógica por trás dos deals: por que certos compradores estão se movendo agora, por que alguns setores voltaram a negociar com mais intensidade e por que tantos processos exigem documentação impecável desde o primeiro contato sério.

As transações recentes de M&A mostram um mercado menos disperso e mais exigente. Os próximos deals devem continuar aparecendo em setores onde escala, tecnologia, resiliência e reposicionamento de portfólio já não podem esperar. E as tendências de M&A mais relevantes não apontam para euforia irrestrita. Elas apontam para um mercado mais seletivo, mais internacional e mais disciplinado.

Para empresas brasileiras, essa é provavelmente a melhor forma de ler o momento: há janela, há capital e há interesse. Mas o mercado está premiando qualidade de ativo, clareza estratégica e prontidão operacional. Quem entender isso cedo chega mais forte à mesa. E, quando a operação entra em fase séria, um data room para M&A ajuda a transformar organização em vantagem real.

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